21 de janeiro de 2010

Escavações da fossa

Arqueólogos ainda buscam corpo de García Lorca da Folha Online



"Depois de mais de um mês e meio de escavações em Alfacar, Granada, os arqueólogos concluíram que o corpo do poeta Federico García Lorca não estava no local onde se acreditava que ele havia sido enterrado há 73 anos, segundo informou o jornal "El País". Durante 51 dias, os arqueólogos vasculharam o perímetro dos fuzilamentos e dos prováveis enterros, e comprovaram que não há restos mortais nem evidências científicas de sepultamentos naquela região.
...
A presidente da Associação para a Recuperação da Memória Histórica (ARMH) de Granada, Maribel Brenes, quer retomar as investigações do zero. A partir de agora, abrem-se uma infinidade de interrogações para os historiadores. Desde a localização exata de onde foram enterrados os corpos do poeta e das outras vítimas até se houve translado e exumação".

Federico Garcia Lorca morreu no mês de agosto de 1936.
É uma vergonha que ainda hoje, 73 anos após sua morte, não se saiba onde seu corpo foi enterrado e o pior: em que circurtâncias morreu o poeta espanhol mais importante desde Cervantes!
Lorca era mais perigoso com uma pena na mão do que muitos com uma arma, disse Ruiz Alonso, o maior responsável pela prisão de Lorca,  prisão que acarretou sua morte.

Lorca continua sendo perigoso: para a direita e esquerda espanhola que insistem em silenciar sua morte. Perigoso para aqueles que têm o nada de vontade, para as mentes pequenas, tacanhas e para aqueles que acham que sabem o que é fazer arte e teatro. Mesmo morto, Lorca é periogoso.

5 de dezembro de 2009

Um café em Madri com Ian Gibson, prato principal: Federico Garcia Lorca



Por: Syntia Pereira Alves

            Ian Gibson, irlandes, mas desde 1984, cidadão espanhol. Hispanista internacionalmente reconhecido por seus trabalhos biográficos, principalmente sobre Federico García Lorca a quem se dedica a estudar desde a década de 60. Sobre o poeta, publicou mais de uma dezena de livros, sendo os títulos mais recentes “Vida, pasión y muerte de Federico Garcia Lorca”, “El hombre que detuvo a Garcia Lorca” e o mais recente “Lorca y el mundo gay”. Gibson publicou também biografias sobre Salvador Dalí, Antonio Machado e outros nomes importantes da cultura espanhola. Além de sua obra literária, realiza intensa atividade jornalística, televisiva e radiofônica. E somado a tudo isso, teve a generosidade de conceder -me em um café de Madri a entrevista abaixo:
 
Syntia Alves - De fato a obra de Lorca foi proibida na Espanha?
Ian Gibson - A primeira edição da Aguilar das Obras Completas saiu em 1954. Não era exatamente toda a obra de Lorca, havia na época censura, mas o próprio Franco deu permissão em 54, para a publicação do livro, e mesmo sendo um livro muito caro, teve um grande êxito. Franco deu sua permissão porque Lorca já representava um problema para o regime franquista, já havia muito turismo na Espanha e não se podia seguir negando a existência de um poeta chamado Federico Garcia Lorca. Os assessores de Franco perceberam que isso criava uma má imagem do país no exterior. A fama de Lorca fora da Espanha não parava de crescer, mas internamente não se publicava nada. Essas “Obras Completas” venderam muitíssimo e a cada nova edição se acrescentava algo mais, e algo mais e algo mais até que as “Obras Completas” ficaram com dois volumes, ao invés de um, e com muito material novo. Eu diria que as obras de fato completas saíram há 10 anos, mais ou menos, porque claro que não apenas pela censura, mas também reorganização de todo o material, sobretudo os escritos juvenis, que ainda não tinham sido publicados. Mas tudo isso veio com a transição democrática, depois da morte de Franco.
S. Alves - E atualmente, como pensa estar a imagem de Lorca na Espanha?
I. Gibson - Bem, a Espanha é um país que lê muito pouco, os índices de leitura são baixíssimos, mas quem na Inglaterra lê os poetas atuais, ou os anteriores?! Uma minoria! O teatro de Lorca sim, tem uma aceitação muito boa no país atualmente, as pessoas têm ído ao teatro... muita gente não lê, mas vai ao teatro de vez em quando e Lorca é um nome famosíssimo aqui, mas ler a fundo a poesia, muito pouca gente lê. Os espanhóis não conhecem a obra de Lorca em sua totalidade, assim como os ingleses não conhecem a obra de Byron em sua totalidade. Mas se vai conhecendo pouco a pouco... há ainda muita incultura, houve aqui 40 anos de ditadura que, claro, não é uma época favorável para a leitura, para a cultura. Agora estamos numa democracia, mas as pessoas seguem lendo muito pouco. Meus próprios netos estão o dia todo com os jogos de computador, ler um livro é muito chato.
S. Alves - Pensando na dramaturgia de Lorca, na sua opinião, qual o motivo de Lorca escolher mulheres como suas protagonistas?
I. Gibson - Tudo na obra de Lorca gira em torno da repressão e da frustração, mas ele não podia por em cena a questão da homossexualidade, falar disso abertamente era impossível. Mesmo em sua obra “O Público”, que é uma peça importante na obra de Lorca, peça escrita no ano 30, nela Lorca expõe toda a problemática da homossexualidade, mas ele não pode colocar isso em toda sua obra. Assim, as mulheres simbolizam todos os que não podem viver sua vida. Ele tinha um grande problema com sua homossexualidade, não podia falar abertamente disso, em público... quando lhe perguntavam porque mulheres, ele respondeu uma vez que era porque não há bons atores na Espanha, que só há boas atrizes, que os homens eram ruins, mas é uma resposta irônica, pra sair da situação. Acredito que ele viveu sua vida sabendo que em qualquer momento alguém lhe faria uma pergunta muito difícil de responder e para se previnir ele respondeu isso, uma resposta muito pouco satisfatória. Ele tampouco escreveu só sobre o tema gay, claro, mas ele não podia viver sua vida e isso ele expressa através de sua obra, e as mulheres das peças expressam mulheres de carne e osso, mas também trazem uma carga simbólica de todos sofrem, que não podem viver sua vida.
S. Alves - A imprensa de direita, na ocasião da estréia de “Yerma”, chamou a obra de “anti-espanhola”. Quais outras obras de Lorca foram vistas como perigosas para as idéias tradicionais da Espanha da época?
I. Gibson - Obviamente “O Público”, mas ninguém conhecia a peça na época, além do que “O Público” tem uma linguagem surrealista, de difícil compreensão, assim “Yerma” é a mais perigosa. Além do que “Yerma” estreou aqui no ano de 34, quando a direita estava no poder, e claro que eles viram a peça como um ataque aos valores tradicionais católicos da Espanha. Há uma velha na peça que diz a Yerma “quando te darás conta que Deus não existe?”, imagine isso no ano 34! Houve um protesto no teatro e os fascistas trataram de interromper a estréia, com Margarita Xirgu no papel de Yerma, e esse foi um ato muito importante. Este é um país pequeno, Madri tinha na época meio milhão de habitantes, todo mundo conhecia todo mundo, e assim Lorca, a partir daquele momento, foi considerado um inimigo da Espanha tradicional. Eu vejo Lorca, através de sua obra, absolutamente comprometido com a sociedade e com a situação social, sempre lutando a favor da liberdade.
S. Alves - A liberdade e a morte são dois temas recorrentes na obra de Lorca. Você crê que isso se deve a situação social da Espanha, antes da Guerra Civil, ou seria uma possível capacidade profética de Lorca?
I. Gibson - Talvez sim uma capacidade profética, mas não sei até que ponto, até porque dizem que ele tinha um forte sexto sentido. Há algo de arrepirante em alguns poemas de Lorca, parece que ele sentia a presença da morte em tudo. Lorca veio de uma cidade pequena, sua mãe era católica, ele tinha muito da liturgia católica, dos mortos da cidade, de ver os funerais, ele tem uma obcessão com a morte muito profunda, um temor muito forte da sua própria morte, quase uma obcessão. Além disso, a liberdade está muito presente, por exemplo na peça “Mariana Pineda”, a imagem da bandeira da liberdade... essas coisas Lorca tem muito interiorizado. E Granada era uma cidade em constante clima de Guerra Civil. Talvez haja algo de promunição, talvez ele já se sentia uma vitima... não tenho certeza, mas não duvido nada de que haja algo de premonitório em sua obra.
S. Alves - Em sua opinião, quais foram os motivos que desencadearam o assassinato de Federico Garcia Lorca?
I. Gibson - Primeiro, Federico era um homem muito conhecido, não estamos falando de um poeta que está começando, estamos falando de um homem famosíssimo, inclusive internacionalmente. No ano de 1933, esteve na Argentina, com “Bodas de Sangue” em cartaz, temporada de alguns meses de teatro lotado, e Lorca envia a seu pai uma quantia astronômica de dinheiro. E isso cria inveja, de modo que primeiro, Lorca era muito conhecido, entre os poetas jovens era o mais conhecido. Inclusive já tendo fama internacional, começando pela América do Sul, mas também em Nova York onde estavam preparando a apresentação de “Bodas de Sangue” em inglês, ou seja, ele estava no auge e as pessoas sabiam disso. Além disso, estava totalmente identificado com a República, com a República progressista, e ligado a Frente Popular fez muitas declarações, assinou manifestos anti-fascistas, leu o “Romanceiro da Guarda Civil” em público... isso foi um ato político, estava totalmente identificado com a Frente Popular. Ou seja, a fama, a identificação, a inveja, o fato de Lorca ser homossexual — fato ao qual a a imprensa de direita faz diversas alusões — ou seja, todos esses fatores. Além desses motivos ligados, também havia muita inveja da família, seu pai teve um passado político pelo partido liberal, era um latifundiário em La Veja de Granada, mas estava ao lado da República. Tudo isso junto foi mais que suficiente para que lhe matassem, porque mataram muitos outros do bando republicano, mas ele era uma pessoa muito conhecida e com uma obra que foi considerada como revolucionária e “roja”.
S. Alves - Não é de conhecimento geral a autoria da denuncia contra Garcia Lorca...
I. Gibson - Bem, não se sabe o autor da denúncia. Eu tenho a declaração oral do irmão José Rosales, dois dias antes de morrer, ele me falou sobre a denúncia. Claro, é a declaração de um falangista, décadas depois, mas acredito que ele não mentiu, e segundo José, a denúncia teria saído do Partido da CEDA, também poderia ter saído da Falange, mas acredito que quem colocou tudo em ação foram os do partido católico de direta, a CEDA. E Ruiz Alonso, principal responsável pela prisão de Lorca, era um dos ex-deputados da CEDA, amargado, e praticamente fascista.
S. Alves - E oficialmente, quais os motivos para prisão de Lorca, quais foram os motivos da denúncia?
I. Gibson - Que Lorca tinha uma obra subversiva, perigosa, que era amigo de Fernando de los Rios, — ministro socialista —, que era homossexual, e que tinha uma rádio clandestina... era um momento no qual se acreditava em tudo, uma denúncia dessas já bastava para ir ao “paredão”. É preciso imaginar aquele momento, a direita organizou um motim e poderia perder a qualquer momento. Os franquistas já vinham com um plano de matar pessoas e Lorca era um inimigo, não há a menor dúvida de que Lorca era um dos principais inimigos e além disso “rojo, maricón” e famoso. Lorca tinha tudo contra ele naquele momento. Bem, depois de alguns meses talvez alguém tenha percebido o perigo de matar-lo, mas nos primeiros momento havia uma espécie de regime de terror, ninguém sabe o que vai acontecer, havia muita insegurança.
S. Alves - E além de Ruiz Alonso, quem mais esteve diretamente relacionado à morte de Garcia Lorca?
I. Gibson - O Governo Civil. Houve uma usurpação do poder. Quando chega alguém, toma o governo, impõe outro governo e este outro é chamado de Governo Civil, isso é uma usurpação e quem dirige este governo é um usurpador. Valdés, José Valdés Guzmán — governador civil rebelde, de direita — era também falangista, “camisa vieja”, como diziam, ou seja, dos antigos falangistas, também militar, quem mandava alí sobretudo, eram os militares e eles que decidiam. Provavelmente consultaram quem decidia, Granada não era capitania geral, era comandância, não tinha a força que tinha Sevilha naquele momento... mas há muito mais que não saberemos nunca, não sabemos como foi porque ninguém contou e não contará nunca, havia muita gente que sabia e isso eu não perdoo, o silêncio! Como em “Bernarda Alba”, “silêncio, aqui minha filha morreu...”, bem, talvez isso também seja uma premonissão, silêncio sobre a tumba, silêncio sobre a verdade, silêncio! E ainda não sabemos onde está o corpo de Lorca!
S. Alves - Mudando um pouco o assunto, em seu livro “Lorca y el mundo gay”, você diz que Lorca tem uma dívida com Shakespeare. Qual seria essa dívida?
I. Gibson - Ah sim, Lorca tem uma dívida muito grande com Shakespeare. Quando jovem, adolescente, Lorca leu Shakespeare, principalmente “Sonho de uma noite de verão” e acredito que isso lhe impacta profundamente. Shakespeare lhe impacta profundamente pelo humanismo, a mistura de tragédia, de comédia, o que Shakespeare escreveu sobre o amor... o amor é um tema recorrente, o amor que pode acontecer a qualquer momento, que não se pode escolher, tudo isso faz parte da maneira de Lorca de ver o mundo, a vida. Lorca leu Shakespeare em espanhol, não sabia inglês, mas isso não fez diferença porque Lorca era um gênio e soube captar os matizes da obra de Shakespeare.
S. Alves - A homossexualidade de Lorca foi um tema tabu na Espanha até pouco tempo...
I. Gibson - Bem, isso ainda é um tema tabu, mas agora menos que antes. O debate aqui na Espanha ainda está imaturo, não se fala de homossexualidade. Já se fala de ser gay, mas isso não quer dizer muita coisa, é algo muito mais complicado, com muitos matizes, e isso ainda não se debate aqui. Mas já está começando... Bem, em 30 anos de democracia não se pode mudar completamente um país, mas o país tem avançado, tem uma legislação com relação aos gays muito avançada e isso é admirável. Ou seja, o país tem avançado, mas também não se pode mudar a mentalidade geral, ainda falta muitos livros, muitos estudos e muita aprendizagem. Poder dizer que Lorca era gay é um passo a frente, mas também não sabemos muito sobre sua vida íntima.
S. Alves - E por que não se fala de Lorca como um agente político?
I. Gibson - Imagino que por ignorância. Imagino que seja por falta de conhecimento, e não por ser um tabu, como o tema da homossexualidade. Todos sabem que Lorca era republicano, se identificava com Fernando de los Rios, com o socialismo liberal. O que acontece é que as pessoas não sabem o que foi a Guerra Civil Espanhola, os jovens não sabem o que foi a República, não se ensina isso no colégio, há muita ignorância de como foi a República e essa é a base do problema. Não se pode nem chamar de amnésia, porque não foi dito, os jovens receberam de seus pais, pessoas da época da guerra, uma visão parcial, todo o tema da Guerra Civil foi um tabu. Os filhos de fuzilados não falaram muito com seus filhos porque era muito terrível pensar no que aconteceu e só agora os netos é que querem saber o que aconteceu, porque seus pais não explicaram nada.
S. Alves - O corpo de Lorca até hoje não foi exumado. Qual a importância da exumação do corpo de Lorca? E quando você acredita que isso pode acontecer?
I. Gibson - Eu acredito que em breve algumas coisas vão acontecer. Estamos em setembro de 2009, e a Junta da Andalucia diz que vai começar isso em novembro, e isso certamente vai acontecer. Há outros mortos na mesma fossa de Lorca, antes diziam que eram quatro, agora apareceu mais um nome, dizem então que são cinco e a família quer procurar o corpo. De repente apareceram duas famílias que até hoje não tinham dito nada e agora estão dizendo há mais corpos. Eu não sei porque não ví o material, mas a qualquer momento se deve abrir a fossa porque há duas famílias pedindo a abertura. E estamos para conhecer a opinião da família de Lorca sobre a abertura da fossa e isso é importantíssimo, porque a família disse anteriormente que não queria que se tirasse os restos de Lorca de onde está, mas depois disseram que não se opõem, e agora pode ser que digam novamente que se opõem, não sei... Mas digam o que queiram, a Junta da Andalucia vai abrir a fossa, porque isso está caindo muito mal para a Junta diante da opinão mundial. Mas a coisa está difícil porque a família de Lorca já disse que não ajudará em nada com a identificação dos restos do corpo do poeta, foi o que disseram, que não ajudaram com DNA... isso me parece grotesco!...

Publicado em:
http://pucsp.br/revistaaurora/ed6_v_outubro_2009/entrevistas/ed6/6_1_um_cafe.htm

21 de novembro de 2009

Documentário "El mar deja de moverse"

Syntia Pereira Alves


Documentário de Emilio Ruiz Barranchina

Asesinato

Cómo fue?
Una grieta en la mejilla.
Eso es todo!
Una uña que aprieta el tallo.
Un alfiler que bucea
hasta encontrar las raicillas del grito.
Y el mar deja de moverse.
Cómo, cómo fue?
Así.
Déjame! De esa manera?
Sí.
El corazón salió solo.
Ay, ay de mí!
( Federico Garcia Lorca )

          Federico Garcia Lorca, ao poetizar sobre a morte brutal de um assassinato, nomeia o documentário de Emilio Ruiz Barranchina, “El mar deja de moverse”, que fala sobre a morte do próprio poeta. O filme estreou na Espanha em setembro de 2006, ano em que a morte de Lorca completava 70 anos.

          Sete décadas depois e ainda se fala da morte de Lorca. Na verdade, o correto seria afirmar que agora é possível falar abertamente sobre a morte de Garcia Lorca. Mas o mais importante é que ainda muito se silencia sobre o assunto. Federico Garcia Lorca e suas obras foram assuntos proibidos na Espanha franquista, ou seja, até a segunda metade da década de 70, quando o país entra em processo de redemocratização. Foi só nesse momento, quase 30 anos atrás, que a Espanha volta a falar publicamente nas obras de Lorca e principalmente se perguntar o que de fato aconteceu com o poeta.

          Na Espanha atual, Federico Garcia Lorca é tido como um patrimônio nacional, o poeta da Espanha, o segundo espanhol mais traduzido no mundo. Suas obras são frequentemente encenadas, seus poemas que décadas atrás foram musicados, hoje servem de base para músicas pop, essas que tocam nas rádios de audiência jovem. Quando se fala dos símbolos espanhóis sempre se tem um poema ou uma frase de Garcia Lorca para ilustrar: o flamenco, as touradas, o catolicismo, o amor e a morte. Parece que Federico Garcia Lorca serve para falar de muitas coisas da Espanha, mas não serve para falar de si mesmo.

          “El mar deja de moverse” trata, portanto, do assassinato do poeta, dos temas proibidos que envolvem sua morte, e da guerra da Espanha. Para falar da Guerra Civil Espanhola, o documentário nos apresenta pesquisadores, historiadores, artistas, herdeiros da história da família Garcia Lorca e das facções políticas de direita e de esquerda da Espanha da época. O tema central do documentário é a morte de Garcia Lorca, mas é visível a preocupação do diretor em situar as pessoas e os fatos que foram importantes no desenrolar da história. Assim, o diretor volta no tempo e visita a Granada do século XIX, situando o espectador de como estava o sul da Espanha: os problemas econômicos que o país enfrentava, a oligarquia e o domínio de Granada nas mãos de apenas três famílias. A família Garcia Lorca era uma delas. São as disputas políticas, econômicas e sociais que vão sendo colocadas ao longo do filme mostrando como se estruturou a vontade de ver Federico Garcia Lorca morto.

          O diretor também coloca qual visão uma parte da Espanha tinha do poeta e nos traz questões que foram fundamentais para o assassinato de Lorca: em 1936, Lorca já era famoso em toda a Espanha, na América por onde passou e era reconhecido como uma das cabeças mais visíveis do mundo cultural da Espanha. A Espanha tinha como um dos artistas mais importantes um poeta, de esquerda e homossexual. É muito claro que para os mais conservadores isso não era motivo de orgulho, mas sim de recusa dessa identificação. Havia muito ódio de Lorca por esses 3 motivos: pelo reconhecimento de sua obra, pelo seu posicionamento político e por sua sexualidade.

          As prováveis causas do assassinato de Lorca foram levantadas pelo diretor ao longo do documentário sem grandes cerimônias, coisa que nem sempre acontece quando se fala da morte do poeta. A morte de Federico Garcia Lorca ainda é tratada por sua família como um tabu. Seus dois sobrinhos ainda vivos, Manuel Fernández Montesinos e Isabel Garcia Lorca, presidente da Fundação Federico Garcia Lorca, dizem que em suas infâncias não se falava em casa da morte do poeta. Ambos aparecem no documentário reforçando a idéia do silêncio em torno do assassinato de Lorca. Mas muitas outras pessoas, afastadas da história familiar dos Garcia Lorca, falam de sua morte e a questionam, e assim Barranchina questiona ao longo de seu filme.

           Outro ponto importante que é levantado no documentário, mas que a família Garcia Lorca ainda segue tentando abafar, é a homossexualidade do poeta. Ian Gibson, o estudioso de Federico Garcia Lorca mais reconhecido no mundo, é uma peça importante para os estudos de Lorca e ele nos coloca o raciocínio de que o país que criou a expressão “macho” com a força que ela carrega, também põe muito peso na expressão “maricón”. O fato é que o ódio aos homossexuais segue sendo muito forte na Espanha, ainda hoje. Apesar de o filme não adentrar na vida sexual de Federico Garcia Lorca, seus amantes e seus amores, é contundente e quase crua a forma com a qual se fala que a homossexualidade do poeta foi sim um fator determinante em seu assassinato. Félix Grande, outro importante pesquisador da vida e da obra de Lorca diz que frequentemente se passa por cima da idéia da homossexualidade como uma das causa da morte do assassinato de Lorca, como que se ignorando que a homofobia é fascista e fanática. E a importância da homossexualidade de Lorca como um dos fatores de seu assassinato ainda é ressaltada com a frase de Luiz Trescastros, um dos assassinos de Federico Garcia Lorca, que declarou que “lhe deu tiros no cu por ser maricón”. Havia contra Lorca muita inveja, inveja por sua obra, genialidade, e seu carisma. A inveja contra o “maricón” se tornou em ódio, nos diz Gibson.

           Mas o que o filme aborda com maior ênfase são as intrigas políticas que suscitaram na morte de Federico Garcia Lorca. Os fatos, da maneira com a qual o filme nos apresenta, nos da a impressão de ter sido a morte de Lorca uma tragédia grega, inexorável, com muitos fatores que convergem para o fim trágico. Havia muito ódio contra seu pai em Granada, ódio por seu rápido enriquecimento e porque tinha posições políticas mais progressistas. Em “Boas de Sangue”, a personagem da noiva diz não ter culpa da tragédia que se passou ao longo da peça, que a culpa não era sua, mas que a culpa é da terra. De uma maneira ou de outra, por instinto ou por questões de posse, Lorca devia saber a força que tem a terra e sentia como os assuntos de terra criam, como sempre, muito ódio, muita briga, e que assim se mata por muito pouco.

           Nesse sentido, o filme caminha pra uma questão importante: Federico Garcia Lorca foi um homem político? A pergunta é importante não pela tentativa de se descobrir a verdade, nem para traçar o comportamento político do poeta, mas por trazer a tona uma questão que sua família tenta silenciar: a postura que Lorca teve diante da sociedade de seu tempo e como ele reagiu a essa sociedade. Enquanto alguns depoimentos do filme dizem que não, que Lorca não foi um homem político, como seu amigo dos tempos de Residência, José Bello, hoje com 103 anos, que afirma nunca ter ouvido Lorca falar sobre política e diz que o assunto não interessava nada ao poeta. Não o interessava “nem a esquerda, nem a direita”. Além de José Bello, a família do poeta também defende o posicionamento apolítico de Federico, e seu sobrinho, Manuel Fernández Montesinos, diz que é de conhecimento geral que seu tio repudiava enquadramentos políticos, que Federico Garcia Lorca não queria ser taxado por algum pensamento, nunca quis participar de nenhuma organização que o obrigasse a ter regras e comportamentos pré-estabelecidos.

          Porém, há opiniões contrarias. Ian Gibson nos coloca a situação política e social da Espanha naquele momento que margeava a guerra e diz que era impossível não ter posição política, impossível ignorar a Frente Popular ou biênio negro. Todos se situavam e Lorca não foi exceção: se colocou contra o Fascismo, assinou manifestos, recitou o romance da “guarda civil” em Barcelona e quase foi preso por causa disso. Como coloca Ian Gibson “Lorca não era de partido, não assinava “carnês” de partidos, porém Lorca teve uma obra revolucionária, era um homem revolucionário e foi percebido como tal, principalmente pela direita, mas tinha uma linha socialista”. Lorca teria assinado manifestos contra Franco, e estar contra a um posicionamento político é um ato político.

          Ainda no âmbito político, o filme faz questão de deixar bem claro que Garcia Lorca não foi assassinado por toda a direita da Espanha da década de 30, mas por uma facção da direita que ia contra outras linhas de direita. O diretor mostra como havia divergências políticas dentro dos grupos envolvidos na guerra e como nem a esquerda e nem a direita tinham posições homogêneas.

          Mas, se as evidências mostram que Lorca teve uma atitude política, por mais que não tenham sido ações partidárias, por que seus herdeiros negam o peso político da obra de Lorca? E por que não querem reabrir a fossa onde se crê que esteja o corpo de Lorca fuzilado? Essas questões são feitas abertamente por Ian Gibson que se coloca pessoalmente interessado em saber o que aconteceu com Federico Garcia Lorca, se de fato ele está onde foi indicado, se o torturaram, assim como muitos admiradores da obra do poeta também se interessam em saber. Com menos força a reposta a tal pergunta é dada por Isabel Garcia Lorca, com um caráter tendendo ao generoso, mas pouco convincente, dizendo que escolher entre uma vítima, ou seja Lorca, tira-lo de onde está seu corpo, seria um erro, afinal a memória está no lugar que estão as fossas.

          O filme vale a pena pelas reflexões que traz, pelos depoimentos de pessoas que se interessam e que buscam informações sobre a vida e a morte de Lorca. Vale a pena por não deixar que a memória do poeta e os fatos que acarretaram sua morte sejam esquecidos em uma fossa soterrada pelo tempo. Se na fossa segue o silêncio sobre a morte de Federico Garcia Lorca, o filme nos faz pensar que mesmo em silêncio o mar não deixa de se mover.



Publicado em:
http://pucsp.br/revistaaurora/ed5_v_maio_2009/resenhas/ed5/5_resenha.htm

3 de novembro de 2009

Boas vindas

Sejam bem vindos todos aqueles que chegam aqui por Federico Garcia Lorca. Por causa dele fui à muitos lugares, conheci muita gente, me conheci...